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Por que a gente sempre briga pelas mesmas coisas?

Foto do escritor: Fernanda Souza
Fernanda Souza
25 de dez. de 2025
6 min de leitura

Casal Brigado

Quarta-feira à noite, o jantar pronto e a mesa posta. Ele chegou vinte minutos atrasado, de novo, sem avisar. Você não disse nada na hora, mas quando ele perguntou como tinha sido o seu dia, a resposta saiu curta. Ele percebeu o tom e imediatamente ficou na defensiva. Você, por sua vez, sentiu que ele não estava te ouvindo. A conversa escalou rapidamente. Em dez minutos, o jantar estava frio e vocês dois estavam em silêncio, sentados em lados opostos do sofá.


No dia seguinte, fica até difícil nomear exatamente o que aconteceu. Não foi bem uma briga sobre o atraso ou sobre tom de voz. Havia alguma coisa por baixo daquilo: uma sensação incômoda de que o outro não entende.


O pior de tudo é saber que essa não foi a primeira vez. Nem a décima.


Se você se reconhece nessa cena, eu quero te contar algo que muda completamente a forma de entender esses momentos. O verdadeiro problema não é o atraso, a pergunta ou o tom de voz. O problema é um ciclo e ele tem nome. Se o que você leu até aqui parece familiar, talvez seja o momento de conversarmos. Atendo casais online e posso ajudar vocês a entenderem o que está acontecendo. Agende uma conversa


O ciclo que ninguém ensina a reconhecer


Muitos casais chegam ao meu consultório dizendo alguma variação da mesma frase: "A gente se ama, mas não consegue conversar sem brigar. O assunto muda, mas o final é sempre igual."


Essa sensação de estar preso em um disco riscado não é uma mera coincidência ou falta de esforço da parte de vocês. Na verdade, é o funcionamento de um ciclo relacional, um padrão de interação no qual o casal entra no piloto automático sempre que o vínculo entre eles parece ameaçado.


A pesquisadora Sue Johnson, criadora da Terapia Focada em Emoções (EFT), descreve esses padrões como ciclos negativos de interação. São sequências de comportamentos e respostas emocionais que se alimentam mutuamente e que tendem a se intensificar com o tempo se não houver intervenção.


O ciclo nunca é sobre o tema da briga. É sobre o que esse tema desperta emocionalmente em cada um de vocês.



Os dois papéis mais comuns na dinâmica


Dentro desse ciclo, cada parceiro tende a assumir um papel. Isso não acontece por escolha consciente, mas como uma tentativa desesperada de lidar com a angústia de se sentir desconectado de quem se ama.


  • O perseguidor: é aquele que cobra, critica e insiste. As falas clássicas incluem: "você nunca me escuta", "parece que eu não importo para você" ou "tudo sempre sobra para mim". Por baixo dessa postura mais combativa, o que geralmente existe é um medo profundo de não ser importante, de não ser visto e de perder a conexão com o outro.


  • O evitador: é aquele que se fecha, se afasta e prefere o silêncio. Costuma pensar coisas como: "melhor eu não falar nada", "nada do que eu faço está bom" ou "se eu responder, a situação só piora". Por baixo dessa postura esquiva, também existe medo. É o medo de decepcionar, de não ser o suficiente e de que qualquer palavra acabe inflamando ainda mais a briga.


O resultado é uma dança dolorosa que nenhum dos dois quer dançar, mas que ambos acabam alimentando. Quanto mais um cobra, mais o outro recua. E quanto mais um recua, mais o outro sente que precisa cobrar.



O inimigo não é o seu parceiro


Esse é o ponto mais importante e, ao mesmo tempo, o mais difícil de enxergar no calor do momento.


Quando estamos dentro do ciclo, o parceiro parece ser o grande problema. Ele parece frio, indiferente e provocador. Ela parece controladora, exigente e impossível de agradar. A partir dessa leitura, cada um age de um jeito que acaba confirmando exatamente o que o outro mais teme. A verdade é que o inimigo não é o seu parceiro, O inimigo é a dinâmica entre vocês.


Por baixo da gritaria ou do silêncio, existe exatamente a mesma ferida nos dois lados: o medo de perder a conexão com quem se ama. Quando o casal consegue enxergar isso, saindo do modo de ataque e defesa para falar sobre o que realmente estão sentindo, a conversa muda de figura completamente.o outro.



O que mantém o ciclo sempre ativo


Um dos maiores desafios desse ciclo é a sua velocidade. Em questão de segundos, uma situação neutra vira um gatilho. Antes que qualquer um dos dois perceba o que está acontecendo, vocês já estão no meio do padrão repetitivo.


Isso acontece porque o nosso sistema de apego funciona de forma automática. O psicólogo John Bowlby, cujo trabalho fundamenta muito do que entendemos hoje sobre relacionamentos adultos, mostrou que somos biologicamente programados para monitorar a disponibilidade das pessoas das quais dependemos emocionalmente. Quando essa disponibilidade parece ameaçada, o nosso sistema de alarme interno dispara antes mesmo de conseguirmos refletir sobre a situação.


Na prática de um relacionamento, isso significa que pequenos sinais de distanciamento, como um tom de voz diferente, uma resposta curta ou um olhar desviado, podem ativar respostas de angústia totalmente desproporcionais ao fato em si. Não porque vocês sejam irracionais, mas porque o sistema de alerta está fazendo exatamente aquilo para o qual foi programado.


Além disso, dentro do ciclo, cada parceiro constrói uma narrativa sobre o outro que tende a confirmar seus piores medos. Quem persegue enxerga o recuo como pura indiferença. Quem recua enxerga a cobrança como um ataque pessoal. Essas leituras não são mentiras inventadas; são interpretações feitas a partir de um estado emocional alterado, sem acesso à vulnerabilidade que está escondida por trás do comportamento do parceiro.


É por isso que falar mais alto, explicar os motivos exaustivamente ou tentar provar quem tem razão nunca resolve o ciclo. A lógica simplesmente não alcança o lugar emocional que foi ativado.



Como a terapia de casal intervém


O trabalho central na terapia de casal, utilizando a abordagem da EFT, é primeiramente desacelerar a fita. Precisamos tornar o ciclo visível para os dois. Quando o casal consegue observar o padrão de fora e perceber que caíram na mesma armadilha novamente, essa dinâmica perde boa parte do seu poder automático. Esse processo envolve mapear o que cada um faz, o que o outro sente quando isso acontece e o que cada um está tentando proteger com aquele comportamento específico.


A segunda etapa é mais profunda e consiste em acessar o que está por baixo. A ideia não é focar na raiva, mas no medo que a raiva está encobrindo. Não focar no silêncio, mas na dor que esse silêncio tenta proteger. Quando um parceiro consegue expressar sua vulnerabilidade e o outro consegue ouvir sem a necessidade de se defender, algo muda na interação. Pode não ser uma mudança permanente logo de cara, mas uma nova experiência é criada. E são as experiências novas e repetidas que reconstroem o vínculo. A partir daí, conseguimos criar um novo padrão.


A meta da terapia não é eliminar os conflitos, mas sim mudar a qualidade deles.


Casais com um vínculo seguro também discordam e passam por momentos difíceis. A grande diferença é que eles conseguem se reparar. Eles conseguem voltar um para o outro depois da briga, em vez de ficarem cada vez mais distantes. Segundo Sue Johnson, o objetivo da terapia não é apenas ensinar técnicas de comunicação, mas restaurar a segurança emocional do vínculo. Quando essa segurança existe na base, a comunicação melhora como uma consequência natural.



Quando buscar ajuda


Existem sinais claros de que o ciclo já está custando muito caro para a relação:


  • As brigas terminam em um silêncio prolongado e sem qualquer reparação;

  • Um ou os dois começam a evitar certos assuntos apenas para não brigar;

  • A sensação de que não adianta tentar conversar já se instalou na rotina;

  • Existem mais interações negativas do que positivas no dia a dia;

  • Alguém começa a questionar se a relação realmente tem futuro.


Um equívoco muito comum é associar a terapia de casal apenas a relacionamentos que já estão em colapso. Na prática, o trabalho é muito mais eficaz e rápido quando o casal nos procura antes de a crise se instalar de vez. Buscar ajuda quando o ciclo começa a se repetir com frequência, quando a distância está crescendo mas ainda não virou um abismo, é a melhor forma de investir na relação antes que o desgaste emocional seja grande demais.



Relacionamento saudável é construído,

não encontrado


O ciclo de brigas repetidas não é um sinal de que o amor acabou, Na imensa maioria das vezes, é apenas um sinal de que o vínculo de vocês está pedindo atenção.

Existe algo muito importante entre vocês que não está conseguindo ser comunicado da forma certa. Sair desse ciclo é totalmente possível e vocês não precisam fazer isso sozinhos. Se vocês estão cansados de ter sempre a mesma briga, vamos conversar. Atendo casais online em todo o Brasil e no exterior.




Psicóloga Fernanda Souza

Fernanda Souza é psicóloga de casais e atende online há mais de 10 anos. É mestre em Ciências da Saúde pela UNIFESP e especialista em Saúde Mental pela USP. Trabalha com a Terapia Focada na Emoção (EFT), membro da International Centre for Excellence in Emotionally Focused Therapy, ancorada numa leitura psicanalítica de por que cada um age como age.


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