É diferença cultural ou problema no relacionamento?


Deve ser porque somos de lugares diferentes.
Você já pensou isso tantas vezes que a frase virou quase uma explicação oficial. Quando a conversa trava, quando a outra pessoa responde com uma frieza que você não reconhece ou quando você precisa explicar pela terceira vez algo que no seu país ninguém precisaria explicar, a resposta chega pronta: é cultural. Na família de onde a outra pessoa veio as coisas sempre foram assim, no lugar de onde você veio ninguém reagiria desse jeito.
No começo, essa explicação trazia alívio. Dava nome ao estranhamento e tirava o peso de cima de vocês dois, porque ninguém precisava estar errado. Só que faz tempo que ela não alivia mais. As brigas mudaram de assunto, mas continuam terminando do mesmo jeito. Os momentos em que vocês se procuravam ficaram raros e, em algumas noites, vocês passam horas na mesma sala sem que nenhum dos dois consiga chegar no outro.
E existe uma pergunta que você ainda não fez em voz alta: e se não for a cultura?
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Se essa pergunta também é sua, atendo casais online no Brasil e no exterior, em português e em inglês. Pode falar comigo pelo WhatsApp e entender como funciona a terapia de casal online.
Por que a diferença cultural vira a explicação para tudo?
A diferença cultural vira a explicação para tudo porque é a diferença mais visível do casal e, ao mesmo tempo, a menos dolorosa de nomear. Ela está no idioma, na comida e no jeito de lidar com a família e com o tempo, aparecendo todos os dias de forma concreta. Já a desconexão é silenciosa. Admitir que ela existe exige dizer coisas bem mais difíceis, como senti sua falta, não sei mais se você me procura ou fiquei com medo quando você se afastou.
Dizer que algo é cultural protege os dois. Ninguém precisa se expor e ninguém precisa estar errado, porque a responsabilidade fica com um país, uma família ou um jeito de ser que veio de longe. Faz sentido que o casal recorra a essa explicação, já que ela cumpre uma função de proteção. O problema é para onde ela leva.
Na prática, a explicação cultural costuma desembocar em um de dois caminhos. No primeiro, o casal conclui que é diferente demais e que não tem jeito, como se compatibilidade fosse algo que se tem ou não se tem desde o início. No segundo, a briga vira uma disputa sobre qual cultura está certa, com cada um defendendo o normal do próprio país. Nos dois caminhos, a conversa fica longe do que dói.
Frases como brasileiro é intenso demais ou europeu é frio cabem bem numa discussão, porque explicam sem pedir que ninguém se exponha. Só que elas descrevem um povo inteiro, não a pessoa que está com você. E a grande questão é como você se sente, quando o seu parceiro age daquela forma, qual a história que passa na sua cabeça e qual o sentimento que gera.
O que costuma estar por baixo da queixa cultural?
Por baixo da queixa cultural costuma estar uma desconexão que qualquer casal conhece, que pode aparecer em brigas que se repetem, num afastamento silencioso, na vida sexual ou depois de uma mudança de vida que tirou os dois do lugar. São os mesmos motivos que trazem para a terapia casais nascidos na mesma cidade. A diferença é que, num casal binacional, a desconexão ganha um sotaque e passa a ser lida como choque de culturas.

Quando as brigas tomam conta
Em muitos casais, a desconexão aparece primeiro como briga, não como silêncio. As discussões ficam frequentes e escalam rápido, muitas vezes a partir de um detalhe como a louça, o atraso para um jantar ou o tom de uma mensagem. Uma pessoa cobra, critica ou insiste em resolver na hora, enquanto a outra se defende, explica demais ou se fecha até a conversa acabar. Em alguns casais, os dois sobem o tom juntos e nenhum consegue recuar.
Num casal binacional, a intensidade dessas brigas costuma ser atribuída ao temperamento de cada país. O volume de quem fala mais alto passa a ser explicado pela origem, assim como o silêncio de quem se cala. Com isso, a discussão vira uma disputa sobre quem tem o jeito certo de brigar. A cultura pode influenciar o tom de voz e o quanto cada um se sente à vontade com o conflito, mas não explica por que a mesma briga volta toda semana com outro assunto.
Sue Johnson descreve a raiva dessas brigas como um protesto contra a desconexão. Quem cobra está tentando fazer o outro voltar a responder, do jeito que consegue naquele momento. Quem se fecha costuma estar tentando não piorar as coisas ou não decepcionar mais uma vez. Por isso, um casal que briga muito também está desconectado, só que de um jeito barulhento: os dois estão tentando se alcançar e, no meio da briga, nenhum dos dois consegue.
Quando o casal se afasta em silêncio
Em outros casais, a desconexão emocional é silenciosa e raramente começa com uma crise. Ela vem da rotina, do cansaço, do hábito de evitar conversas difíceis e de pequenos pedidos de atenção que ficam sem resposta, até que um dia os dois percebem que dividem a vida, mas não dividem mais o que sentem. Nesse ponto, a briga sobre a frequência das ligações para a família ou sobre o jeito de passar o domingo deixa de ser sobre o domingo e passa a carregar uma pergunta que nenhum dos dois formula: você ainda está aqui comigo? Escrevi mais sobre esse processo no artigo sobre distanciamento emocional no casal.
Quando o desejo diminui
A desconexão sexual costuma seguir um caminho parecido. Um dos dois procura e o outro não está disponível. A recusa é lida como rejeição pessoal quando, muitas vezes, o que faltou foi proximidade emocional antes. Depois de algumas tentativas, quem procurava para de procurar para não se machucar, enquanto quem recusava sente o afastamento sem saber como voltar. Num casal binacional, esse silêncio facilmente vira explicação cultural, algo como no seu país ninguém fala sobre isso ou na minha família a gente demonstra carinho de outro jeito. A cultura pode influenciar o quanto cada um se sente à vontade para falar de sexo, mas o que mantém os dois longe costuma ser o medo de pedir e ouvir um não de novo.
Quando a vida muda de lugar
O quarto motivo é uma mudança de vida que exige dos dois uma postura emocional nova. Pode ser a chegada de um filho, uma mudança de país, a perda de um emprego, um processo de visto que se arrasta, a doença de alguém da família que mora longe ou até uma boa notícia, como uma promoção que reorganiza a rotina. Em casais binacionais, essas mudanças costumam pesar de forma desigual, porque muitas vezes um dos dois está longe da própria rede de apoio. Quando essa pessoa diz você não entende o quanto é importante para mim passar o Natal em casa, a frase parece falar de tradição. Por baixo dela, com frequência, está um medo mais simples, o de atravessar essa fase sem ter com quem contar.
Como saber se o problema é cultural ou é desconexão?
Um sinal forte de que o problema é desconexão, e não cultura, é quando as mesmas diferenças que antes não incomodavam passam a pesar depois de uma fase difícil da vida a dois. A cultura de cada um continua a mesma de quando vocês se conheceram, então, se o incômodo mudou, vale perguntar o que mudou entre vocês.
Alguns sinais ajudam a separar uma coisa da outra:
As diferenças existiam desde o começo, mas o incômodo cresceu depois de uma mudança, como um filho, uma mudança de país ou um período de muito trabalho.
O assunto da briga muda, mas o desfecho se repete. Um insiste e o outro se fecha, ou os dois se afastam e cada um termina a noite com a própria mágoa.
As discussões sobre costumes ficam mais frequentes quando o tempo a dois, o toque ou o sexo diminuem.
A briga é menos sobre o costume e mais sobre o que ele parece dizer, como você não se importa comigo ou eu não sou prioridade aqui.
Quando um dos dois cede no costume, o alívio dura pouco e a briga volta com outro tema.
Se não é a cultura, ela não importa?
A cultura importa, mas em outro lugar: ela molda a forma como cada um pede e oferece conexão, não a necessidade de conexão em si. O psiquiatra britânico John Bowlby, que formulou a teoria do apego, descreveu a necessidade de ter alguém que responda quando a gente precisa como parte do que nos faz humanos, e não como traço de uma nacionalidade. Essa necessidade é a mesma em qualquer idioma. O que cada cultura e cada família ensinam é o jeito de expressá-la.

Uma pessoa pode ter aprendido em casa que quem ama diz tudo na hora, enquanto a outra aprendeu que quem ama espera o momento certo e escolhe as palavras. Uma família demonstra afeto com presença constante, outra com cuidado prático e discreto. Quando a conexão está boa, essas diferenças são só diferenças.
Quando a conexão está em risco, cada um se agarra com mais força ao próprio jeito, enquanto o jeito do outro passa a parecer descaso.
Sue Johnson, psicóloga que desenvolveu a Terapia Focada na Emoção (EFT) para casais com base na teoria de Bowlby, mostrou que casais em sofrimento costumam cair num mesmo tipo de ciclo. Um se aproxima com protesto, cobrança ou crítica, na tentativa de chegar até o outro, enquanto quem está do outro lado se protege com distância ou silêncio para não piorar as coisas. A cultura de cada um muda o sotaque desse ciclo, como o tom de voz da cobrança ou a forma do silêncio, mas a dança é reconhecível em casais de culturas muito diferentes.
Algumas diferenças concretas também pesam de verdade, como a dependência do outro para o visto, a desigualdade financeira causada pela mudança, o idioma e a distância da própria rede de apoio. Elas não criam a desconexão sozinhas, mas aumentam o que está em jogo. Quando um dos dois depende do outro para documentos, dinheiro ou para se comunicar no dia a dia, precisar do outro fica mais assustador e qualquer afastamento pesa mais. No artigo sobre os desafios reais dos relacionamentos interculturais, falo de como essas diferenças aparecem na rotina do casal.
E quando a cultura é usada para justificar controle?
Quando é a minha cultura passa a justificar controle, não se trata de diferença cultural nem de desconexão, e sim de dominação. Isso inclui reter documentos, controlar todo o dinheiro, decidir pela outra pessoa sobre a vida dos dois, vigiar o celular ou afastar a outra pessoa da família e dos amigos dela.
Num casal binacional, a dependência do visto, do idioma e da renda pode tornar essa dinâmica mais difícil de reconhecer e mais difícil de deixar. A diferença em relação ao ciclo de desconexão é que, no ciclo, os dois estão tentando se alcançar do jeito que aprenderam e sofrem com a distância. Na dominação, um usa o poder que tem sobre o outro de forma organizada e repetida, a ponto de a outra pessoa passar a ter medo.
A terapia de casal não é o caminho indicado quando um dos dois tem medo do outro. Nesse caso, o primeiro passo é buscar um serviço especializado em violência doméstica no país onde você vive. Brasileiros no exterior também podem procurar o consulado do Brasil, que oferece acolhimento e orientação nessas situações, independentemente da situação migratória.
Como a Terapia Focada na Emoção (EFT) trabalha com casais de nacionalidades diferentes?
A Terapia Focada na Emoção (EFT) trabalha com casais de nacionalidades diferentes do mesmo jeito que trabalha com qualquer casal: olhando para o ciclo que afasta os dois e para as necessidades de vínculo por trás dele, com a cultura de cada um como contexto e não como veredito. A abordagem é praticada em diversos países, com formação e certificação de terapeutas organizadas pelo ICEEFT (International Centre for Excellence in Emotionally Focused Therapy), a sociedade internacional de Terapia Focada na Emoção.
Na prática, o trabalho costuma passar por quatro movimentos:
Identificar o ciclo em que vocês caem e entender como cada movimento faz sentido na história de cada um, inclusive na história cultural.
Traduzir a queixa cultural em necessidade emocional. Na minha família todo mundo se fala todo dia pode estar dizendo eu tenho medo de não ter ninguém aqui, assim como eu preciso de espaço pode estar dizendo eu não sei o que fazer quando sinto que estou falhando com você.
Ajudar cada um a dizer o que está por baixo de forma direta, para que o outro tenha chance de responder ao pedido, e não à cobrança.
Voltar aos acordos práticos, como visitas, festas, idioma da casa e dinheiro, quando eles já não funcionam como prova de quem é amado. Nesse ponto, decidir fica bem mais fácil.
O objetivo não é deixar vocês parecidos, e sim ajudar cada um a reconhecer o próprio jeito e o jeito do outro para conseguir escolher outro caminho no meio do conflito. As sessões são online e, quando um dos dois não fala português, podem acontecer em inglês.
Quando vale procurar ajuda?

Vale procurar ajuda quando a explicação cultural parou de aliviar e as conversas sobre ela começaram a deixar vocês mais distantes. Não é preciso esperar a relação chegar ao limite. Quanto antes o casal consegue olhar para o ciclo, menos ressentimento se acumula e mais simples costuma ser o trabalho.
É comum que um dos dois queira começar e o outro hesite, às vezes justamente com o argumento de que vocês são diferentes demais para que uma conversa resolva. Dizer que a terapia de casal não parte da ideia de que vocês precisam ficar parecidos costuma ser um bom começo para essa conversa. Se essa é a situação de vocês, escrevi sobre o que fazer quando um quer terapia de casal e o outro não.
A cultura de cada um vai continuar fazendo parte de vocês, sem que isso precise mudar. O que pode mudar é o lugar que ela ocupa nas brigas. Quando ela deixa de ser a explicação para tudo, aparece espaço para olhar o que estava por baixo e para encontrar o caminho de volta um para o outro.
Se vocês querem olhar para isso juntos, atendo casais online no Brasil e no exterior, em português e em inglês. Agende uma conversa pelo WhatsApp.

Fernanda Souza é psicóloga de casais e atende online há mais de 10 anos. É mestre em Ciências da Saúde pela UNIFESP e especialista em Saúde Mental pela USP. Trabalha com a Terapia Focada na Emoção (EFT), membro da International Centre for Excellence in Emotionally Focused Therapy, ancorada numa leitura psicanalítica de por que cada um age como age.
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