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Meu relacionamento é tóxico ou a gente só briga muito?

Foto do escritor: Fernanda Souza
Fernanda Souza
1 de set.
8 min de leitura
Casal discutindo

Você digitou a pergunta no celular depois de mais uma discussão que terminou sem terminar, cada um num canto da casa, e o que apareceu foram várias listas...


  • "10 sinais de um relacionamento tóxico";

"5 coisas que todo relacionamento tóxico tem"


Você leu tudo e reconheceu alguma coisa em quase todos os itens, mas mesmo assim saiu da leitura com mais dúvidas do que entrou. Isso, porque a lista não sabe diferenciar uma noite ruim que se repete há dois anos de um lugar onde violência e dominação estão no coração do relacionamento. Você continua sem saber em qual dos dois você está e essa é justamente a pergunta que muda tudo.


Se você quer conversar sobre o que está acontecendo aí dentro, saiba mais sobre a terapia de casal.



O que as pessoas chamam de relacionamento tóxico?


Tóxico não é um termo clínico, é um guarda-chuva popular que cobre situações muito diferentes entre si. Debaixo dele cabe:

  • O casal que briga pelas mesmas três coisas há anos;

  • o casal que parou de brigar e também parou de se falar;

  • a relação em que uma das pessoas foi traída e não conseguiu voltar a confiar;

  • a relação em que existe controle, ameaça e medo.


São realidades que pedem caminhos opostos, e a palavra trata todas como se fossem uma só. A palavra pegou porque ela nomeia rápido uma coisa que estava sem nome. Antes dela, quem estava numa relação que fazia mal e não tinha um episódio dramático pra apontar ficava sem vocabulário, ouvia que todo casal tem seus problemas e voltava pra casa com a sensação de estar exagerando. Tóxico deu linguagem pra essa sensação e isso teve valor. Contudo quando usamos essa etiqueta como diagnóstico de si e do outro, aplicada a partir de um vídeo de trinta segundos, começamos a ter problemas.


O problema prático é que a etiqueta atrapalha os dois casos que ela mistura. Quem está num ciclo doloroso e tratável se convence de que a relação é irrecuperável e desiste de um trabalho que teria efeito, e quem está numa relação de dominação escuta que precisa se comunicar melhor e passa mais tempo tentando consertar algo que não é dele pra consertar.



Toda relação difícil é tóxica?


Dois homens sentados no sofá, cabisbaixos e preocupados, em sala clara.

Não. Conflito recorrente, mágoa acumulada e distância não são, por si só, sinal de toxicidade, são sinal de um ciclo negativo que se instalou entre duas pessoas que ainda se importam. A Terapia Focada na Emoção (EFT), abordagem desenvolvida por Sue Johnson a partir da teoria do apego de John Bowlby, parte exatamente daí:


Quando o vínculo fica inseguro, cada pessoa reage do jeito que aprendeu a reagir quando se sente sem saída, e essas duas reações se alimentam uma da outra.

Na prática isso costuma ter uma forma reconhecível. Uma das pessoas insiste, cobra, levanta a voz, faz mais perguntas, critica, quer resolver agora, porque por dentro tem uma voz que grita que a relação tem um problema. Enquanto isso, a outra pessoa se fecha, responde pouco, sai da sala, adia a conversa, porque acredita que qualquer coisa que disser ou fizer vai piorar tudo. Cada movimento confirma o medo do outro.


Quanto mais um persegue, mais o outro se recolhe, e quanto mais um se recolhe, mais o outro persegue. Ninguém está sendo cruel ali, os dois estão tentando alcançar o outro com a única ferramenta que têm na mão naquele momento, só que a ferramenta está machucando.


Um ciclo assim dói de verdade. Ele produz noites em claro, ansiedade, sensação de solidão dentro de casa e às vezes falas que a pessoa se arrepende no minuto seguinte. Nada disso é pouca coisa, mas nada disso significa que a relação é tóxica no sentido de irrecuperável. Significa que o padrão virou maior que as duas pessoas, que sozinhas elas não conseguem sair dele, porque estão dentro do olho do furacão. Se você reconhece esse desenho na sua casa, o artigo sobre brigas que se repetem sempre pelo mesmo motivo descreve o mecanismo em detalhe.


Qual a diferença entre um ciclo doloroso e uma relação abusiva?


A diferença está na direção do poder e na presença do medo, não na intensidade do sofrimento. Num ciclo, as duas pessoas sofrem, as duas contribuem sem querer e as duas têm poder de mudar o que acontece. Numa relação abusiva existe um padrão sistemático em que uma pessoa mantém controle sobre a outra, e o desequilíbrio é estável, não alterna conforme o dia.


Algumas perguntas ajudam a se localizar. Não são um teste e não fecham diagnóstico, servem pra dar nome ao que você já percebe.


Você escolhe as palavras por delicadeza ou por segurança? Todo mundo mede o que fala numa relação. A pergunta é se você mede pra não magoar alguém que você ama ou pra não gerar uma consequência que você já sabe qual é.


O que acontece quando você discorda? No ciclo, discordar gera briga, silêncio, uma noite ruim e uma retomada difícil depois. No abuso, discordar gera punição,como castigo, ameaça de ir embora ou de contar algo, retaliação com dinheiro, escalada.


O que acontece quando você pede pra parar? No ciclo, a pessoa tenta, falha, tenta de novo, e as duas ficam frustradas com a própria dificuldade de mudar. No abuso, o pedido vira material contra você, usado depois como prova de que você é o problema.


Sua vida encolheu? Controle costuma aparecer como cuidado antes de aparecer como controle. Amizades que foram ficando inviáveis, trabalho que virou motivo de tensão constante, celular conferido, deslocamento explicado, gasto justificado. Controle financeiro tem nome próprio no Brasil, violência patrimonial, e está previsto na Lei Maria da Penha justamente porque é uma forma comum de dominação, não uma questão de organização do casal.


Você duvida da sua própria percepção? No ciclo, as duas pessoas reclamam, cada uma com a sua versão, e as duas conseguem descrever o que aconteceu. Quando uma pessoa sai da conversa achando que inventou, que exagerou ou que a memória dela não é confiável, e isso se repete, isso não é confusão comum de casal.


Além disso, existe uma linha que não depende de padrão nenhum. Violência física, violência sexual, ameaça de morte, ameaça contra filhos, animais ou familiares, e destruição de coisas como ameaça e demonstração do que pode acontecer com você. Uma única vez já muda o encaminhamento, mesmo com pedido de desculpa sincero depois, mesmo com promessa de que não se repete, mesmo se veio junto de um período bom.

Vale dizer com clareza uma coisa que costuma passar batido: abuso não tem gênero fixo nem configuração de casal fixa. Acontece em relações heterossexuais e em relações entre pessoas do mesmo gênero, com homens e com mulheres na posição de quem sofre, e a vergonha de não caber no roteiro esperado é uma das razões pelas quais tanta gente demora a nomear.



E se a pessoa tóxica for eu?


Essa pergunta aparece muito e merece uma resposta que não seja nem absolvição automática nem condenação. Comportamento que machuca quase nunca vem de maldade, vem de uma estratégia que a pessoa aprendeu em algum momento da vida pra lidar com medo, com abandono ou com falta de controle e que segue rodando no automático mesmo quando ela já não quer. Reconhecer a função por trás do que você faz é o começo do trabalho, não é desculpa pro que você faz.


Se o que você reconhece em você é a insistência, a explosão, o silêncio como retirada ou a frieza que vem depois da briga, você está descrevendo um lado de um ciclo, e ciclo se trabalha a dois.
Se o que você reconhece é que você monitora, controla o dinheiro, ameaça ir embora pra conseguir o que quer ou já usou força física, o caminho é diferente e é individual, com um profissional que trabalhe especificamente com isso.

Parar de fazer não vem de boa intenção nem de arrependimento, vem de um trabalho próprio. Se o caso for de um ciclo entre o casal o melhor é a terapia de casal, se for uma questão de controle e monitoramento, o melhor é a terapia individual.



Relacionamento tóxico tem conserto?



Casal sorridente em sala de estar, mulher abraça o homem; sofá, mesa de vidro e quadros ao fundo, clima acolhedor.

Depende do que está embaixo da palavra e essa é a razão de a distinção importar tanto. Um ciclo de desconexão tem tratamento com resultado consistente, inclusive quando o casal chega achando que já tentou de tudo, porque o que se trabalha não é a lista de assuntos que geram briga e sim o padrão que se repete debaixo de todos eles. Quando o vínculo volta a ser um lugar seguro, os mesmos assuntos continuam existindo e param de virar ameaça.


Já uma relação organizada em torno de dominação não é um caso de terapia de casal e insistir nesse formato pode aumentar o risco. A terapia de casal funciona porque as duas pessoas falam com honestidade dentro da sessão, e quando existe medo, tudo que foi dito na sessão pode ser cobrado depois, em casa, longe de qualquer testemunha. Não é que o caso seja sem saída, é que a saída passa por outro tipo de apoio antes.


Existe ainda uma terceira resposta, menos falada. Tem ciclo que tem conserto e casal que decide não consertar, porque a vontade acabou, porque um dos dois já saiu emocionalmente há tempo ou porque o custo de continuar não compensa. Isso também é uma conclusão legítima e chegar nela com clareza é diferente de sair no meio de uma briga sem entender o que aconteceu.



O que fazer em cada caso?


Se o que existe é um ciclo


Procure terapia de casal, de preferência com uma abordagem que trabalhe o padrão e não a técnica de comunicação isolada. Comunicação melhor sozinha não sustenta, porque no meio do conflito ninguém acessa a técnica que aprendeu, acessa o medo. O que muda o jogo é entender qual é a função do que cada um faz, e conseguir dizer o que está por baixo antes que o ciclo comece a rodar.

Se você está em dúvida sobre a hora certa de procurar, os sinais de que um casal precisa de terapia ajudam a organizar essa decisão, e se o seu parceiro não quer ir, existe caminho mesmo quando só um dos dois quer terapia.


Se o que existe é abuso


O primeiro passo é conversar com alguém de fora, e não precisa ser uma decisão sobre ficar ou sair. Pode ser só entender melhor onde você está, com alguém que não faz parte da história.


No Brasil, os caminhos disponíveis são a Central de Atendimento à Mulher, o Ligue 180, que é gratuito, funciona 24 horas e não exige boletim de ocorrência pra orientar, e o Disque 100, canal de direitos humanos que atende situações de violência contra qualquer pessoa. Em caso de risco imediato, 190. Presencialmente, existem as Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher, os CREAS, que são os centros de referência especializada da assistência social nos municípios, e a Defensoria Pública, que orienta sobre medida protetiva sem custo.


Se você mora fora do Brasil, procure o número de emergência local e os serviços de apoio a vítimas de violência doméstica do país onde você está, que existem em praticamente todo lugar e costumam atender em mais de um idioma. O consulado brasileiro também consegue orientar sobre serviços locais e sobre documentação.


E vale um cuidado prático: se você usa um computador ou celular que outra pessoa tem acesso, considere fazer essas buscas num aparelho que não seja o seu, ou apagar o histórico depois.



Nem toda relação que dói está acabada e nem toda relação difícil é só uma questão de comunicação. A diferença entre as duas coisas não é só teoria, é a diferença entre procurar a ajuda certa e passar mais dois anos tentando resolver com a ferramenta errada.
Psicóloga Fernanda Souza

Fernanda Souza é psicóloga de casais, mestre em ciências, e atende online casais no Brasil e no exterior, em português e inglês. Trabalha com a Terapia Focada na Emoção (EFT), abordagem desenvolvida por Sue Johnson com base na teoria do apego de John Bowlby, e é membro do ICEEFT (International Centre for Excellence in Emotionally Focused Therapy), a sociedade internacional de Terapia Focada na Emoção. Tem como diferencial a psicologia financeira aplicada a casais, ajudando parcerias a saírem do automático na conexão e no dinheiro.




 
 
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